Economia

Paulo Guedes narra em Davos um país inexistente e com uma economia a caminho de se tornar referência global

Por Da Redação

27/05/2022 às 05:35:40 - Atualizado há

O discurso do ministro da Economia Paulo Guedes estava na ponta da língua: o Brasil voltou a crescer, o ambiente de negócios está ótimo, o governo é liberal na economia e criou as condições para o resgate da confiança… Tudo perfeito para vender bem o peixe do Brasil. Na teoria. Na prática uma notícia vinda aqui do lado debaixo da linha do Equador e protagonizada pelo presidente Jair Bolsonaro (somada a um rosário de indicadores ruins da economia) bastou para frustrar as expectativas e a retórica isenta de realidade de Guedes no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça. Na terça-feira (24) Bolsonaro voltou a mexer no comando da Petrobras, o que gerou uma avalanche de dúvidas para o ministro na Europa, algumas saias-justas e nenhum acordo comercial relevante firmado.

O passeio aos Alpes de Guedes já começou a azedar com a divulgação do IPCA-15, uma prévia da inflação, que atingiu 0,59% em maio, o maior para o mês desde 2016. Apesar de o número mostrar uma desaceleração ante abril, o indicador preocupa porque foi uma queda menor do que a expectativa. Isso significa que a inflação é mais persistente e disseminada do que se esperava. Com essa informação em mãos e sabendo da mudança no comando da Petrobras, Guedes precisou inverter o discurso. A postura ufanista no começo da viagem logo se transformou em defesa do governo em ano eleitoral e ataques aos rivais. “[Se o PT ganhar], o Brasil não vai entrar em colapso porque nós reforçamos toda a base institucional. Mas vai andar devagar, quase parando”, disse Guedes, para empresários. “Fizemos em 15 meses o que eles fizeram em 15 anos.”

Sem qualquer acordo comercial concreto, Guedes aproveitou para fazer uma ponta de embaixador da antidiplomacia bolsonarista. Ofuscado pelo noticiário que vinha do Brasil, o ministro fez ataques a Bélgica e a França, que estariam, segundo ele, agindo para retardar o ingresso do Brasil na Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as nações mais desenvolvidas do mundo. Segundo ele, os dois países adotam essa postura para proteger seus setores agrícolas de competição com o Brasil. O ministro afirmou ainda que a Europa “perdeu a Rússia” e vai perder também a América Latina como parceira comercial se não houver maior integração entre os países. “A Bélgica e a França ficam retardando o acesso do Brasil à OCDE porque são protecionistas com sua agricultura. Conversando com eles dissemos: "Nos aceitem antes que se tornem irrelevantes para nós"”, disse Guedes, em palestra no fórum. “Eu disse aos europeus que eles perderam a Rússia e agora perderão a América Latina.”

A deselegância diplomática de Guedes causou mal-estar em um fórum que tem apelado ao diálogo para solucionar os problemas atuais da economia global, de inflação à guerra da Ucrânia —o presidente Volodimir Zelenski foi um dos nomes de destaque do Fórum.

O AMANHÃ Em plena guerra, presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, falou sobre construir uma nova perspectiva de futuro para o mundo moderno. (Crédito:Fabrice Coffrini)

Curiosamente, Guedes atacou um dos principais parceiros do Brasil. No primeiro trimestre deste ano, a França despontou como o país que mais concretizou investimentos diretos por aqui, num total de US$ 8,6 bilhões, segundo a Câmara de Comércio Exterior (Camex). Foi o melhor resultado da história. Além disso, há mais de 1 mil empresas francesas no Brasil — gigantes que vão de L"Oréal, Michelin e Renault até Carrefour, Danone e Saint-Gobain —, que empregam mais de 500 mil pessoas, de acordo com a Câmara de Comércio Brasil-França.

Para Welber Barral, estrategista de comércio exterior do Banco Ourinvest e ex-secretário de Comércio Exterior, Guedes tentou em Davos adotar uma postura que evitasse transparecer o aumento das intervenções do governo na economia, mas ficou impossível depois da mudança na Petrobras. “O Guedes se esquivou até onde deu das polêmicas”, afirmou.

ESPERANÇA Depois do climão com a Europa e a confusão com a Petrobras, Guedes até tentou resgatar um otimismo na reta final da viagem. Ele avaliou que o País também “vai se livrar” da inflação antes das economias mais avançadas — ignorando ou omitindo que a escalada média dos preços no G20 (+7,9%) é bem menor que a brasileira (11,3%) em 12 meses até março, segundo a OCDE.

Para completar seu exercício de ilusionismo, disse que o Brasil vai crescer 2% este ano, mais do que as economias desenvolvidas. Seu próprio ministério, no entanto, divulgou semana passada a previsão de expansão do PIB de 2022 em 1,5%. Segundo Guedes, o crescimento será maior com inflação mais baixa, e porque o governo promoveu um ajuste nas contas públicas, contendo gastos, ao mesmo tempo em que o BC começou a subir a taxa básica de juros mais cedo.

Sobre as balbúrdias econômicas de Bolsonaro, disse que ele não tem nada a ver com a mudança na Petrobras. “O presidente indica o ministro. O ministro indica o conselho. O conselho indica o CEO e a diretoria. É isso.” Alguém precisa avisá-lo que somente ele anda acreditando no que diz. E que uma coisa inevitável chamada realidade o contradiz. Com fatos.

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