Sa√ļde Pol√≠tica

Ministério incinerou quase 40 milhões de doses de vacinas vencidas nos últimos quatro anos, aponta governo

Por G1

20/04/2023 às 05:15:21 - Atualizado h√°
Valor total dos itens perdidos supera os R$ 170 milhões. Entre vacinas perdidas estão itens do Calend√°rio Nacional de Vacinação e que hoje estão com problemas de abastecimento. O Ministério da Sa√ļde incinerou mais de 39 milhões de doses de vacinas que passaram da validade entre 2019 e 2022. Entre elas, estão mais de 3 milhões de doses da vacina pentavalente, que est√° em falta em postos de sa√ļde desde 2019 por problemas de abastecimento em todo o mundo.

Segundo os dados fornecidos via Lei de Acesso à Informação, foram incinerados 3.884.309 de frascos da vacina pentavalente com uma dose cada. A vacina protege contra tétano, coqueluche, difteria, hepatite B e contra uma bactéria que causa infecções no nariz, na meninge e na garganta.

J√° da vacina dupla viral, que protege contra sarampo e rubéola, foram queimados mais de um milhão de frascos com 10 doses cada, ou seja, 10 milhões de doses deixaram de ser aplicadas. A imunização contra a hepatite B perdeu 5 milhões de doses.

Veja as vacinas com mais frascos destruídos:

Vacina Pentavalente (1 dose): 3.884.309

Vacina Dupla Viral (sarampo e rubéola) (10 doses): 1.015.908

Vacina contra hepatite B (10 doses): 596.860

Vacina BCG (20 doses): 497.830

Vacina Tríplice Viral (5 doses): 321.284

R$ 170 milhões de preju√≠zo

No total, o custo só com a perda das vacinas foi de R$ 170 milhões - o gasto do governo federal é ainda maior, porque h√° despesa para se fazer a gestão do estoque e também para inciner√°-lo.

O valor representa quase 10 vezes o orçamento previsto para o combate à tuberculose no pa√≠s, que é de R$ 13 milhões para este ano. A proteção contra a doença envolve a vacina BCG, da qual o ministério destruiu 9 milhões de doses. No ano passado, o ministério teve de reduzir o n√ļmero de doses enviadas aos estados por problemas no estoque.

Só no caso pentavalente, a demanda do Brasil é de 800 mil doses por m√™s, mas "o abastecimento est√° parcialmente suspenso desde julho de 2019 porque os lotes foram reprovados no teste de qualidade", conforme registra o ministério em sua p√°gina. O estoque incinerado poderia ter abastecido toda a necessidade do pa√≠s por mais de 4 meses.

A pasta aponta que j√° solicitou a reposição do fornecimento da pentavalente à Organização Pan-Americana da Sa√ļde, braço da Organização Mundial da Sa√ļde nas Américas, mas "não h√° disponibilidade imediata da vacina pentavalente no mundo".

Perdas prosseguem

As perdas continuam acontecendo em 2023. Em janeiro, o ministério realizou uma nova incineração, desta vez de cerca de 6 milhões de doses, a maioria contra a Covid-19.

Elas não foram renegociadas a tempo com as empresas fornecedoras - o Ministério da Sa√ļde tem um prazo estabelecido em contrato para solicitar trocas de lotes de vacina a partir de sua demanda para, por exemplo, contemplar mais vacinas pedi√°tricas em relação às doses adultas.

"J√° identificamos alguns contratos em que ainda conseguimos fazer trocas. H√° previsão que, antes do prazo de expiração do contrato, posso trocar por outro produto com um prazo maior, inclusive no caso de algumas vacinas", disse Ethel Maciel, secret√°ria de Vigilância em Sa√ļde e Ambiente, a pasta respons√°vel pela gestão do Programa Nacional de Imunizações.

O Ministério da Sa√ļde trabalha atualmente na elaboração de um plano chamado de "Estoque Cr√≠tico", que consiste no levantamento de todos os itens com vencimento até dezembro de 2023.

O objetivo é evitar ao m√°ximo perdas por expiração de validade. A pasta j√° anunciou que vai começar a distribuir medicamentos que estão perto de perder a validade.

'Movimento antivacina' é fator

"Nós temos que ter reserva estratégica, e acontece de termos perdas de reserva técnica", disse a secret√°ria sobre eventuais perdas que acontecem durante o processo de manuseio e transporte das vacinas.

"Mas devemos estar sempre distribuindo [as vacinas], não podemos manter em estoque. Em alguns casos espec√≠ficos de o estado ou munic√≠pio não ter condições de fazer o armazenamento o armazenamento, podemos ficar. Mas não é o que est√° acontecendo", explica Ethel.

Segundo a secret√°ria, as perdas só serão evitadas com a adesão da população às vacinas. "Infelizmente esse movimento negacionista antivacina, que ganhou ainda mais força durante a pandemia, afetou toda a vacinação", disse. "Não houve est√≠mulo pra vacinação, então as vacinas ficaram l√° paradas, não foram distribu√≠das para os munic√≠pios."

O processo não é simples, j√° que ao menos desde 2016 o pa√≠s não consegue atingir a meta de cobertura vacinal de 95% para a maioria das vacinas.

A cobertura vacinal contra a Hepatite B, por exemplo, chegou a superar o p√ļblico-alvo esperado para o ano de 2016, mas caiu drasticamente até chegar a 71% em 2021. No ano passado, apresentou leve recuperação e chegou a 77% da população alvo.

No caso da pentavalente, a cobertura vacinal no período oscilou entre 70,76% e 77,86% - índices menores do que todos os registrados nos anos anteriores, entre 2013 e 2018.

Hesitação vacinal

O presidente da Sociedade de Infectologia do Distrito Federal, José David Urbaez, diz que os n√ļmeros são um "certificado de m√° pr√°tica, de incompet√™ncia, de desmanche" da rede. Ele destaca que as perdas são inevit√°veis, mas não na escala observada, e também alerta para o problema da chamada hesitação vacinal.

"O Brasil não tinha hesitação vacinal como um problema tão importante, mas no momento em que se começa a colocar uma quantidade de malef√≠cios das vacinas, isso é muito sens√≠vel e a√≠ voc√™ tem impacto na procura. O problema fundamental é falta de procura, por uma campanha maciça anti-vacina, que chegou ao c√ļmulo na Covid", destaca ele.

Urbaez aponta que os alertas para a queda na cobertura vacinal no fim de 2022 podem ter colaborado para uma retomada da procura desde então, mas √≠ndices que ainda permanecem baixos preocupam.

"As vacinas funcionam como a da Covid, uma imunidade coletiva para fazer uma barreira que protege a população, inclusive a que não pode receber vacina. Mas sem a cobertura adequada não vai se chegar a essa imunização", explica.

Atritos com estados

Urbaez também critica o que chama de desagregação do programa, com aumento nos problemas de interlocução com estados e munic√≠pios. Em um sistema de sa√ļde complexo como o SUS, a precisão de informações é um processo fundamental para gestão de estoques. O tema também est√° no radar do ministério.

"Eu não consigo saber exatamente o que est√° acontecendo l√° na ponta. Quando eu trabalho com os conselhos [de sa√ļde estaduais e municipais], eu consigo planejar melhor. Houve uma desarticulação, isso foi claro, e acredito que essa desestruturação de alinhamento dificultou a gestão. Não tem uma explicação do porqu√™ falta vacina [no posto] e tem no estoque", disse Ethel.

"Precisamos recuperar a confiança dos estados e munic√≠pios de que vamos distribuir as vacinas de acordo com as demandas", afirmou ela.
Fonte: G1
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