Política Machismo

Crime e castigo: a estigmatização das mulheres em casos de assassinatos passionais

Por Priscilla Peixoto - Da Cenarium

21/09/2021 às 23:02:30 - Atualizado h√°


MANAUS – O envolvimento extraconjugal de Jordana Azevedo Freire com o sargento do Exército Brasileiro Lucas Guimar√£es, assassinado no √ļltimo dia 1¬ļ de setembro, tem se destacado nos notici√°rios e nas m√≠dias sociais. Dentre v√°rias postagens na internet sobre o caso, n√£o é dif√≠cil notar coment√°rios que ressaltam muito mais a trai√ß√£o de uma mulher casada do que a execu√ß√£o da v√≠tima com disparos de arma de fogo na cabe√ßa que, segundo Pol√≠cia Civil do Estado, teve como mandante o marido de Jordana, Joabson Agostinho Gomes. Um comportamento presente na sociedade onde quase sempre culpa a mulher em detrimento dos erros e atitudes radicais dos parceiros.

Mesmo sem retirar os erros de fato cometidos por Jordana, ainda sim é poss√≠vel notar a replica√ß√£o do comportamento machista presente no pensamento da sociedade, onde Joabson Gomes, dono de uma rede de supermercados, ao descobrir a rela√ß√£o extraconjugal da esposa com Lucas, encontra na morte a "poss√≠vel resolu√ß√£o do problema" e consequentemente passa ao status de esposo tra√≠do e Jordana vira alvo dos "ju√≠zes de internet", que a responsabilizam pela decis√£o do parceiro de interromper abruptamente a vida de outra pessoa.

Na leitura e an√°lise do psicólogo Adan Silva, o caso ilustra mais um caso de misoginia e posse. "Mais um caso t√≠pico do homem que se sente dono da mulher. Isso é uma constru√ß√£o histórica e estrutural do que é ser mulher na sociedade. Ainda carregamos essa influ√™ncia do pensamento judaico-crist√£o, da Eva traidora e do macho indefeso e diversas constru√ß√Ķes do que é pecaminoso. As pessoas costumam se incomodar e pensar dentro dessa caixa, tendo a mulher como posse e vista como ser naturalmente pecaminosa e errada", explica o psicólogo.

Jordana Freire ao lado do esposo Joabson Gomes e a vítima Lucas Guimarães (Reprodução/Internet)

Posição inferior

Para a feminista e mestra em Sociologia Marklise Siqueira, outra quest√£o que auxilia a "culpabiliza√ß√£o" da mulher é o constante posicionamento inferior na qual a figura feminina é colocada. "Na an√°lise que a gente faz enquanto movimento feminista e da sociologia, isso é um tra√ßo de uma sociedade marcada num processo em que tudo que ela faz ou até mesmo o que ela n√£o faz tem culpa. Isso se encaixa também para viol√™ncia doméstica. Esse tra√ßo é muito forte na forma√ß√£o brasileira e coloca a mulher no lugar passividade e retira os homens do foco e acabamos com o dificuldade de repensar de fato o que é problem√°tico no lugar correto", comenta a socióloga.

Questionamentos

Para a doutoranda em História da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) e ativista Michele Pires, os pontos em torno do caso, mais do que respostas, trazem diversos questionamentos. Michele acredita que nestes casos, ao observar o notici√°rio, é necess√°rio uma reflex√£o sobre o machismo que atravessa a sociedade ainda que de forma inconsciente, muitas vezes silenciando a mulher.

"É importante nos perguntarmos algumas coisas como, por exemplo, ela "fugiu" porque queria ou porque foi coagida pelo marido? Quando colocamos essa indaga√ß√£o passamos ent√£o a refletir a pr√°tica de uma estrutura de pensamento e comportamental que tenta coagir, intimidar e retirar qualquer possibilidade de fala da mulher. Quais as viol√™ncias domésticas que as mulheres nesta situa√ß√£o vivem? Mais do que respostas, creio que tenha que ser colocado aqui perguntas pra gente entender o porqu√™ h√° essa invers√£o ou propor√ß√£o para algo que n√£o deveria ter", diz Michele Pires.

A sociedade culpa a mulher em detrimento dos erros e atitudes radicais de seus parceiros (Reprodução/ internet)

Reflex√£o e patriarcado

De acordo com a psicóloga e sexóloga Neyla Siqueira, quando o assunto envolve sexo, a mulher sempre ser√° a "ré no tribunal da moral e dos bons costumes", ao ponto de inverter o peso e consequ√™ncia de uma culpa que lhe é forjada sem cerimônia.

"Hoje, n√£o est√° se falando de um homem que mandou matar, est√° se falando da mulher que traiu, que desviou dinheiro, como se fosse a √ļnica culpada de todo processo e respons√°vel por tudo. Quando na verdade, estamos falando de uma masculinidade fr√°gil que n√£o soube lhe dar com trai√ß√£o e tentou resolver as coisas de uma forma criminosa. Isso é reflexo de nossa sociedade patriarcal, onde se atribui a culpa de uma decis√£o errada na mulher, onde é mais interessante um debate em rela√ß√£o à vida sexual dela ao principal teor que é uma vida que se foi e como isso vai ser punido", explica a especialista.

A sexóloga ressalta que o comportamento de julgamento engloba, inclusive, outras mulheres que, por vezes, sem perceber também assumem uma atitude machista endossando o tribunal social que condena. Ela aproveita o contexto para promover o seguinte questionamento:

"Se fosse ao contr√°rio, ser√° que estariam condenando o ad√ļltero? Com toda certeza eu digo que n√£o. Na verdade estariam acusando a mulher de louca, sem intelig√™ncia emocional e, de novo, acusando de uma outra forma a mulher. Vale ressaltar aqui que n√£o estamos falando de car√°ter, relacionamento aberto, fechado ou monogamia, isso é outra coisa. O que ressaltamos aqui é comportamento da sociedade que infelizmente é replicado por décadas", afirma.

Outro caso

Em 12 de novembro de 2014, a ent√£o estudante de Direito Denise Almeida Silva, de 34 anos, sofreu uma tentativa de homic√≠dio ao viver um caso extraconjugal e tri√Ęngulo amoroso onde todos os envolvidos eram casados. Na ocasi√£o, o empres√°rio Marcos Souto, além de ter um relacionamento às escondidas com Denise, também mantinha uma rela√ß√£o com a socialite Marcelaine Schumman.

Shummman n√£o se conformou em viver um tri√Ęngulo amoroso e no lugar de terminar o relacionamento, escolheu responsabilizar a "rival" por atrapalhar a rela√ß√£o com o ent√£o amante. Apesar de ter sido encomendado por uma mulher, o caso também integra a lista onde a figura feminina é sempre o "problema"

Na época, Marcelaine encomendou o assassinato de Denise. Ela ofereceu R$ 7 mil para que o executor matasse a v√≠tima. Atingida por disparos de arma de fogo, ela foi levada para o Hospital 28 de Agosto e depois transferida para uma unidade de sa√ļde particular de Manaus recebendo alta dois dias após o crime. A socialite foi condenada a sete anos e nove meses de pris√£o em regime semiaberto e, atualmente, cumpre pris√£o domiciliar.

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