Política Rubem Braga

Uma crônica de Rubem Braga sobre pessoas que partem e amores que findam

Hoje publicamos no portal ICL Not√≠cias mais uma crônica de Rubem Braga, nesta seção que resgata textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos para refletir com autores geniais do Brasil e de outros pa√≠ses.

Por ICL Notícias

10/06/2024 às 12:42:31 - Atualizado h√°

Hoje publicamos no portal ICL Not√≠cias mais uma crônica de Rubem Braga, nesta seção que resgata textos, imagens e sons que façam o leitor dar uma pausa na marcha imediata e angustiante dos fatos para refletir com autores geniais do Brasil e de outros pa√≠ses.

"Despedida" foi publicada pela primeira vez em livro em "A traição das elegantes", da Editora Sabi√°, no ano de 1967 (p√°gina 83). Uma obra-prima do mestre da crônica. O autorretrato que ilustra esta p√°gina foi feito em data desconhecida por Braga e pertence ao arquivo de seu √ļnico filho com Zora Seljan, Roberto Seljan Braga, que morreu aos 79 anos em 2017.

Cadernos do escritor Rubem Braga guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa

Caderno do escritor Rubem Braga guardado na Fundação Casa de Rui Barbosa, que cuida do seu acervo (Reprodução)

Despedida

Rubem Braga

E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perda da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a √ļltima vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.

Creio que ser√° permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não ser√° proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem ser√° odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplic√°vel sentimento de al√≠vio, e de sossego; e um indefin√≠vel remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela j√° esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haver√° outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro in√°bil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é poss√≠vel que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o sil√™ncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

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