Sa√ļde Polui√ß√£o

Pesquisadores da UFPR monitoram forma de contaminação de rios pouco conhecida por paranaenses

Por Por Isabela Stanga sob supervisão de Maria Fernanda Mileski

09/06/2021 às 20:28:28 - Atualizado h√°

O pesquisador faz parte do grupo de pesquisa, que é vinculado ao PPGERHA e conta com cientistas da UFPR e também da Universidade Tecnológica Federal do Paran√° (UTFPR). Sob coordena√ß√£o do professor J√ļlio Azevedo, a equipe é atualmente formada por nove alunos de pós-gradua√ß√£o.

Com a evolu√ß√£o da an√°lise de compostos em concentra√ß√Ķes cada vez menores nas √°guas superficiais, como de rios, subst√Ęncias diferentes dos poluentes j√° reconhecidos como prejudiciais ao meio ambiente puderam ser localizadas e estudadas como contaminantes emergentes. De acordo com o coordenador do grupo de pesquisa, "esses contaminantes s√£o compostos qu√≠micos presentes na formula√ß√£o de produtos do nosso dia a dia, como remédios, cosméticos, cremes, xampus, condicionadores, utens√≠lios domésticos e até mesmo em nossa comida. Esses compostos n√£o s√£o regulamentados por nenhuma legisla√ß√£o ambiental brasileira atualmente". Como exemplo, ele cita anti-inflamatórios e antibióticos, hormônios, conservantes, antimicrobianos, plastificantes, filtros UV, entre outros elementos.

Em imagem tirada entre 2017 e 2019, pesquisadores investigam os impactos dos contaminantes emergentes no ambiente que, ainda que n√£o sejam comprovados, s√£o observ√°veis. Foto: B√°rbara Alves de Lima/Arquivo Pessoal

A iniciativa elaborada por Luis Peixoto monitora, a partir da intelig√™ncia artificial, os n√≠veis dessas subst√Ęncias nos rios com base na quantidade de outros compostos presentes em sua √°gua. Assim, o programa cruza os dados dos diversos componentes encontrados no corpo h√≠drico e relaciona-os, o que permite calcular a concentra√ß√£o de uma subst√Ęncia a partir da presen√ßa de outra.

O projeto do doutorando também pretende relacionar dados socioeconômicos aos n√≠veis de contaminantes encontrados nos rios de uma regi√£o. Em suas pesquisas, ele encontrou correla√ß√Ķes diretas entre fatores sociais e econômicos, como a quantidade de pessoas em moradias irregulares e a condi√ß√£o dos corpos h√≠dricos em seu entorno.

"A premissa em que me baseio é que a condi√ß√£o do rio é um retrato da sociedade que habita a sua bacia hidrogr√°fica. Por meio da polui√ß√£o carregada pelas chuvas para o corpo fluvial, conseguimos identificar os h√°bitos de consumo e os maneirismos da popula√ß√£o", afirma. Dessa maneira, seu objetivo é disponibilizar um programa baseado na intelig√™ncia artificial que relacione dados ambientais aos socioeconômicos para prever poss√≠veis consequ√™ncias para os rios, contribuindo para a gest√£o p√ļblica das regi√Ķes próximas às bacias hidrogr√°ficas.

Contaminantes emergentes no Paran√°

Mesmo que ainda n√£o tenham comprova√ß√Ķes cient√≠ficas sobre os efeitos nocivos para os seres humanos, os contaminantes emergentes possuem impactos observ√°veis nos ecossistemas aqu√°ticos. Essas subst√Ęncias podem levar ao desequil√≠brio ambiental, contribuir para a degrada√ß√£o dos corpos h√≠dricos e afetar diretamente os animais que vivem nos rios. "Um caso em que os contaminantes afetaram uma popula√ß√£o aconteceu nos Estados Unidos. Em uma concentra√ß√£o de cinco a seis nanogramas por litro, hormônios femininos lan√ßados na √°gua foram respons√°veis pela feminiliza√ß√£o de peixes. Ou seja, machos come√ßaram a ficar estéreis, alguns até mudaram sua anatomia, tornando-se hermafroditas e/ou f√™meas estéreis", comenta Luis Peixoto.

Segundo dados apurados desde o ano de 2012 pelos pesquisadores dos Estudos Avan√ßados em Qu√≠mica Ambiental, o principal componente encontrado nos rios da Regi√£o Metropolitana de Curitiba e no litoral do Paran√° é a cafe√≠na. Também s√£o frequentemente localizados conservantes de produtos de cuidado pessoal, como parabenos e antimicrobianos, entre eles o triclosan, usado em sabonetes que eliminam 99,9% das bactérias. Além disso, foram observados f√°rmacos como paracetamol, ibuprofeno, diclofenaco e antibióticos, bem como hormônios utilizados em p√≠lulas anticoncepcionais, como o etinilestradiol.

Na foto, um cromatógrafo, equipamento usado pela equipe nas pesquisas em laboratório. Foto: Luana M. Takahasi Marques/Arquivo Pessoal

A explica√ß√£o para a presen√ßa desses compostos nos rios, na maioria das vezes, é a presen√ßa de esgoto doméstico. De acordo com o professor J√ļlio Azevedo, os remédios e anticoncepcionais s√£o eliminados na urina e nas fezes, enquanto os produtos como cremes, xampus e outros itens de higiene pessoal, s√£o carregados pela √°gua do banho. Assim, o destino final dessas subst√Ęncias é o esgoto doméstico, que por vezes pode ser jogado clandestinamente nas √°guas fluviais sem tratamento. Outra forma de carregamento de contaminantes acontece por meio do escoamento da chuva, que leva consigo diferentes part√≠culas para os rios.

O grupo de pesquisa Estudos Avan√ßados em Qu√≠mica Ambiental investiga os corpos h√≠dricos do estado desde 2012 e possui estudos de mestrandos e doutorandos conclu√≠dos e em andamento na faixa litor√Ęnea e no Porto de Paranagu√°, em Ponta Grossa e na Grande Curitiba. Os resultados obtidos pelas pesquisas indicam que, durante o ver√£o, a contamina√ß√£o emergente aumenta nas cidades de Guaratuba, Matinhos, Praia de Leste, Ipanema, Pontal e Guaraque√ßaba, devido ao maior n√ļmero de turistas na regi√£o e o consequente crescimento de produ√ß√£o de esgotos domésticos. Os principais compostos localizados foram a cafe√≠na, hormônios utilizados em p√≠lulas anticoncepcionais, alguns f√°rmacos e protetores solares (filtros UV).

Cientistas em 2019, do grupo de pesquisa que é composto por nove pesquisadores de pós-gradua√ß√£o e estuda os rios paranaenses desde 2012. Foto: B√°rbara Alves de Lima/Arquivo Pessoal 2019

Em outra an√°lise, agora na cidade de Paranagu√°, os pesquisadores da equipe descobriram que a √°gua de √°reas com menor presen√ßa humana, como a Ilha da Banana, a Prainha do Pasto e a Ponta do Ub√°, apresentou melhor qualidade quando comparada com a de regi√Ķes urbanas no curso do Rio Itiber√™. J√° em Ponta Grossa, tr√™s rios foram estudados entre 2015 e 2016, todos afluentes do Rio Tibagi e que cruzam o centro da cidade: o Arroio Olarias, o Arroio Ronda e o Rio Verde. O levantamento apontou que os compostos mais detectados foram a cafe√≠na, Ibuprofeno, Benzilparabeno e Triclosan, bem como altas concentra√ß√Ķes de nitrog√™nio amoniacal (forma aqu√°tica da amônia, poluente tóxico) e de ortofosfato (encontrado nas pastas de dente, detergentes e adubos), que induzem a prolifera√ß√£o desordenada de algas e degradam o ambiente.

Na Regi√£o Metropolitana de Curitiba, os pesquisadores da UFPR e da UTFPR destacam como mais contaminados o Rio Igua√ßu, o Rio Belém e as partes finais do Rio Barigui e do Rio Atuba. Para o professor J√ļlio Azevedo, as altas concentra√ß√Ķes de contaminantes emergentes nesses corpos fluviais s√£o consequ√™ncia da urbaniza√ß√£o da capital do estado. "O que notamos é que, quanto maior a densidade demogr√°fica da regi√£o, maiores s√£o os n√≠veis de contamina√ß√£o. Os rios afluentes do Igua√ßu, por exemplo, nascem em √°reas da RMC e passam pelo centro dessas cidades. Ent√£o, próximo à nascente do rio, a qualidade da √°gua é melhor, e, perto de sua foz, a polui√ß√£o por contaminantes emergentes é maior", exp√Ķe.

Outras formas de poluição fluvial

Em rela√ß√£o à situa√ß√£o dos rios paranaenses, recentemente a Rede de Monitoramento e Modelagem Ambiental – REsMA tem se organizado para o desenvolvimento de estudos de avalia√ß√£o de risco na bacia do rio Igua√ßu relacionados à fauna aqu√°tica e às popula√ß√Ķes humanas. Esta é uma rede de pesquisadores de um projeto vinculado ao Programa de Internacionaliza√ß√£o da Universidade Federal do Paran√° (Capes-Print-UFPR), com a participa√ß√£o de nove programas de pós-gradua√ß√£o.

Ciro Alberto Oliveira Ribeiro, professor dos Programas de Pós-Gradua√ß√£o em Biologia Celular e Molecular, Ecologia e Conserva√ß√£o, Mestrado Profissional (ProfBio) e coordenador do REsMA, relata que o projeto pretende avaliar diversas bacias hidrogr√°ficas paranaenses. O Rio Igua√ßu, por exemplo, é monitorado pelos pesquisadores de seu grupo h√° cerca de 15 anos. "Nós trabalhamos com a exposi√ß√£o de micropoluentes presentes na √°gua fluvial em organismos vivos e, através de biomarcadores de contamina√ß√£o ambiental, avaliamos o risco de exposi√ß√£o desses organismos aos poluentes presentes nesses ambientes", explica. "Portanto, estudamos o potencial impacto dos danos em diferentes n√≠veis de organiza√ß√£o biológica, como molecular, em prote√≠nas, lip√≠dios e no DNA do animal exposto, bem como a n√≠vel celular, tecidual ou sist√™mico, como o sistema endócrino, respons√°vel pela produ√ß√£o de hormônios."

Sobre a polui√ß√£o dos rios do estado, que diz respeito à presen√ßa de elementos e subst√Ęncias cientificamente comprovados como maléficos para o ambiente e para os seres humanos (como o micropl√°stico), o pesquisador destaca o Rio Igua√ßu, pois foi classificado como o segundo corpo h√≠drico mais polu√≠do do pa√≠s pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat√≠stica (IBGE), em levantamento realizado no ano de 2013.

Em registro de 2019, pesquisadores da Resma estudam a bacia do Rio Iguaçu há cerca de 15 anos e pretendem analisar mais corpos hídricos paranaenses. Foto: Ciro Alberto Oliveira Ribeiro/Arquivo Pessoal

A Ag√™ncia Nacional de Águas e Saneamento B√°sico também fornece dados sobre o estado das √°guas dos rios paranaenses. Um dos indicadores testados é a Demanda Biológica de Oxig√™nio, par√Ęmetro mais utilizado para medir a polui√ß√£o fluvial, que se refere à quantidade de oxig√™nio consumido na degrada√ß√£o da matéria org√Ęnica de um meio aqu√°tico. Na √ļltima testagem, realizada no ano de 2017, o Rio Atuba, que passa por Curitiba, apresentou o maior √≠ndice referencial no Paran√°, de 24,8 mg L-1. O Igua√ßu ficou em segundo lugar, uma vez que variou entre 18,6 mg L-1 e 7,2 mg L-1 por cinco pontos testados.

"O Alto Igua√ßu nasce na serra do Mar, passa pela Regi√£o Metropolitana de Curitiba e recolhe toda a polui√ß√£o que uma metrópole pode oferecer, tanto em termos de despejo industrial quanto de despejo urbano. Toda essa contamina√ß√£o se espalha ao longo rio e deteriora o que est√° pelo caminho", afirma o professor Ciro. "Em uma extremidade do Igua√ßu existe uma degrada√ß√£o total, pode-se dizer que o rio est√° morto. Mas, l√° no final dele, est√° um cart√£o postal, as Cataratas do Igua√ßu. Isso é um contrassenso enorme".

Conforme monitoramento realizado entre 2013 e 2018 pelo Instituto Água e Terra (IAT), o corpo h√≠drico com melhor qualidade de √°gua na Grande Curitiba é o Rio Piraquara, na cidade de Piraquara. Sua condi√ß√£o foi classificada como "muito boa", com √ćndice de Qualidade de Água (IQA) de 0,15 (o indicador varia entre 0 e 1. Quanto mais próximo de 1, maior a polui√ß√£o do rio). O ponto mais polu√≠do da regi√£o metropolitana, de acordo com o Instituto, pertence ao Rio Igua√ßu na altura do munic√≠pio de S√£o José dos Pinhais, com 0,97 de IQA.

J√° no litoral do estado, todos os rios avaliados pelo IAT possuem qualidade "boa" ou "muito boa". O melhor qualificado é o Rio do Nunes, em Antonina, com √≠ndice de qualidade de 0,10, e os piores s√£o o Rio Cachoeira, também em Antonina, e o Rio Sagrado, em Morretes, ambos com 0,25 de IQA.

Tratamento e saneamento: possibilidades de mudança

As solu√ß√Ķes para a contamina√ß√£o emergente e para a polui√ß√£o dos rios s√£o as mesmas, segundo os pesquisadores do grupo Estudos Avan√ßados em Qu√≠mica Ambiental e do REsMA: saneamento b√°sico para todas as resid√™ncias e tratamento de esgoto eficiente. Além do investimento em ci√™ncia e em novas tecnologias que possibilitem uma melhora no manejo dos despejos urbanos, industriais e hospitalares.

Luis Peixoto ressalta que a coleta de lixo também é importante para impedir o deslocamento dos res√≠duos para o fluxo h√≠drico e exp√Ķe meios de eliminar os esgotos clandestinos. "Em uma vis√£o governamental, é necess√°rio interligar todas as casas à rede de recolhimento e de tratamento de esgoto. Caso n√£o se possa ligar algum domic√≠lio, a alternativa seria oferecer subs√≠dios para a constru√ß√£o de solu√ß√£o individual de tratamento de esgoto, como tanques sépticos (fossas)", sugere.

Os pesquisadores apontam que é preciso investimento em ci√™ncia para melhorar os sistemas de saneamento e tratamento de esgoto e, consequentemente, reduzir a polui√ß√£o dos rios. Foto: Ciro Alberto Oliveira Ribeiro/Arquivo Pessoal

O professor Ciro acrescenta que é preciso desenvolver uma separa√ß√£o entre os diversos tipos de tratamento de res√≠duos, bem como modernizar seus métodos. "Deve-se recolher os esgotos de todos os estabelecimentos, mas também separ√°-los. Res√≠duos hospitalares seriam tratados diferentemente do esgoto domiciliar, assim como o industrial, a fim de garantir a melhor qualidade poss√≠vel. Precisamos também modernizar os procedimentos". Ele comenta que nos Estados Unidos, as pessoas s√£o instru√≠das a jogar os medicamentos nos vasos sanit√°rios e darem descarga, pois o tratamento de esgoto do pa√≠s é eficiente. "Para chegarmos nesse n√≠vel, precisamos de muito investimento", ressalta.

Em √Ęmbito individual, o professor J√ļlio Azevedo aponta que reusar e reduzir o consumo de √°gua, controlar a ingest√£o indiscriminada de remédios (principalmente antibióticos), priorizar o consumo de produtos mais naturais (livre de parabenos e de outros conservantes) e diminuir a utiliza√ß√£o de pl√°stico s√£o a√ß√Ķes que contribuem para a qualidade da √°gua dos rios. Ademais, ele refor√ßa que a liga√ß√£o do imóvel à tubula√ß√£o de esgoto sanit√°rio é responsabilidade do propriet√°rio, portanto, ele deve estar atento a essa quest√£o. "O sucesso depende da a√ß√£o e da conscientiza√ß√£o de todos", reconhece.

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