Política Terra Livre

Comunicadores indígenas: trabalho deve ser revestido de ativismo

Por Agência Brasil

25/04/2024 às 08:58:24 - Atualizado h√°
Brasília - José Paulo Sampaio, da rede Wayuri, fala sobre a comunicação social dos indígenas - Foto Joédson Alves/Agência Brasil

"Awiti mãsa". A transmissão de, no m√≠nimo, duas horas de duração começa com uma saudação em l√≠ngua tukano que poderia ser traduzida como "ol√°, tudo bem?". Ao vivo, direto do Acampamento Terra Livre (ATL), no centro de Bras√≠lia, o comunicador ind√≠gena João Paulo Sampaio, da Rede Wayuri, da etnia piratapuia, e residente em São Gabriel da Cachoeira (AM), não para nunca. Ele tem a preocupação de contar as novidades do evento na capital do Brasil. Por isso, entra ao vivo na r√°dio e nas redes sociais, fotografa, filma e escreve. "As pessoas da minha comunidade estão esperando pelas novidades daqui".

Comunicadores ind√≠genas como ele, em diferentes idiomas, e inclusive em portugu√™s, são como enviados especiais ao ATL para um trabalho que vai além da cobertura midi√°tica. Eles são também ativistas, de forma a garantir a visibilidade e a memória das reivindicações das comunidades. Para eles, a comunicação deve ser revestida de ativismo. Os equipamentos eletrônicos, de câmeras profissionais a pequenos aparelhos de celular, estão a esse serviço, combinando com as vestimentas e adereços diversos que marcam a pluralidade do evento.

"Nosso arco e flecha"

O antropólogo Edgar Kanaykõ Xakriab√°, de 33 anos, presente no evento, est√° grudado à m√°quina fotogr√°fica profissional. Ele recorda que a paixão pela imagem começou na aldeia em que vive, na cidade de São José das Missões (MG), na década passada, quando surgiu a energia elétrica para a comunidade.

"Surgiram, com a energia, também os pequenos aparelhos de imagem. Passei a fotografar as coisas da minha aldeia, a mata, os movimentos culturais". A experi√™ncia inspirou o rapaz a cursar o mestrado e pesquisar o que a imagem significava para o seu povo. "Fotografia é uma arma com lente. É nosso novo arco e flecha", compara.

Ele tem, como p√ļblico-alvo, 33 aldeias e cerca de 11 mil pessoas. Edgar Kanaykõ Xakriab√° lembra ainda que a imagem era vista antes como perigo. Hoje, a visão nas comunidades mudou, j√° que foi compreendido que a imagem garante visibilidade para as pautas que desejam debater, como a demarcação de territórios. Trinta mil seguidores acompanham diariamente as imagens do pesquisador e fotógrafo. Além da divulgação, Edgar faz oficinas de comunicação e fotografia e explica como os celulares podem agilizar a comunicação.

Multiplicação de saberes

Também agarrado à sua m√°quina, o estudante de jornalismo Duiwe Orbewe, de 21 anos, do povo xavante, do território ind√≠gena de Parabubure, em Campin√°polis (MT), atua como videomaker e fotógrafo. Ele diz que se apaixonou pela imagem aos 5 anos de idade, em sua aldeia, quando assistiu ao filme O mestre e o divino, dirigido por um ind√≠gena (Divino Tserewahu).

Atualmente, ele atua para a Federação dos Povos Ind√≠genas de Mato Grosso (Fepoimt) e fica orgulhoso com o retorno que o seu povo traz em relação ao seu trabalho. Voltado a levar mais conhecimento à comunidade, passou no vestibular da Universidade de Bras√≠lia (UnB) e est√°, desde o ano passado, na capital. "Mas volto sempre que posso para a comunidade".

Garantia de vozes

Enquanto o jovem est√° atr√°s da lente, a jornalista Mara Barreto Sinhosewawe, de 39 anos, atua para o jornal Bol√≠via Cultural. Ela é da Aldeia Wederã, na Terra Ind√≠gena Pimentel Barbosa, em Ribeirão Cascalheira (MT). Mara entende que a função de repórter ind√≠gena é também de ativista.

"É uma forma de militância, de garantir voz a quem não tem chance. De dar espaço a protestos, às causas ind√≠genas e às mulheres". Por isso, desde que chegou ao acampamento, não parou. "São muitas histórias e estamos aqui para isso". O gravador e o microfone são extensões desses ideais.

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