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Elas são o verdadeiro Poder Público: conheça mulheres que são lideranças em bairro de Curitiba

Por Da Redação

20/01/2022 às 15:07:53 - Atualizado há

Assim que chegou ao bairro Parolin, em Curitiba, meia hora depois de mais uma forte chuva que afetou novamente a periferia da cidade, a reportagem encontrou Andréia, Amanda e Angélica já organizadas, desde manhã, em mutirão para retirada dos restos de lixo que as enchentes carregaram até o quintal de Andréia – uma entre cerca de 150 pessoas afetadas pelas enxurradas na região.

As três são liderança locais. Andréia de Lima é diarista, promotora legal popular, foi candidata a vereadora em 2020 e mora ao lado do projeto de canal extravasor do rio Guaíra, obra iniciada em 2018, que carrega as cheias na bacia do rio Belém, mas está incompleta e gera reclamações entre o povo da região. Já Amanda Gonçalves é especialista em gastronomia e Angélica de Paula, por sua vez, promotora popular.

Integrantes de entidades como Usina de Ideias e Tabuleiro, elas são responsáveis na prática pela organização de cadastros, pelo apoio às famílias que seguem perdendo eletrodomésticos e móveis com as chuvas.

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Respondem também pela organização, pela capacitação em geração de renda, pela solidariedade e realização de cozinha comunitária na região. Ao mesmo tempo em que pressionam os equipamentos públicos pelo atendimento à população, “Nós somos terceiro setor, sempre dizemos que o CRAS é que deve atender a demanda da região”, afirma Angélica.

Se o Parolin é muitas vezes conhecido pelo impacto das chuvas a cada janeiro, e pela presença da Polícia Militar, com ações racistas e de intimidação permanente, há uma questão que nem todo mundo sabe e que dificulta ainda mais a situação: as lideranças relatam que a prefeitura não estabelece canais de diálogo, audiências, informações sobre as obras para o povo que vive ao lado do canal.

Um silêncio e, ao mesmo tempo, uma tentativa de silenciamento por parte do poder público. “Há anos protesto aqui e, conversando com trabalhadores das obras, já me disseram que havia orientação de não falar com a gente”, aponta Andréia.


“Queremos ter a nossa dignidade, ter poder de compra para os nossos móveis”, define. / Giorgia Prates

Riscos para a população

Diante dessa situação de descaso, pode-se dizer que essas lideranças, ao lado de outras mulheres, jovens, moradores, conformam o poder público local. Isso porque a atenção da gestão municipal, de acordo com elas, é inexistente. Afirmam que, ao longo das atuais duas semanas de chuva, não tiveram visita da Defesa Civil e tampouco alguma explicação sobre a continuidade das obras.

“E a prefeitura disse que já não teria enchente no Parolin. Vejo drenagem sempre perto das empresas Carrefour e Leroy Merlin, mas aqui não”, critica Andréia. Outro problema que pôde ser verificado pela reportagem são as aberturas e falta de muretas em trechos no canal, o que representa risco de acidentes entre as crianças.

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Enquanto recebiam doação de um fogão, encaminhado para uma das moradoras mais necessitadas, também ao lado do rio, Angélica comenta que, caderno nas mãos, faz o cadastramento das famílias e fala da angústia de expectativa diária de tempestades, sem ter onde abrigar as famílias impactadas. “Não tem local para alocar as pessoas, nem a escola, o CRAS é pequeno, moradores abandonaram a sua casa, "vou sair da vila", não tem auxílio. Temos que dar pelo menos um respaldo para a população, às vezes é 23h30 e tem gente tocando em casa precisando de materiais de limpeza”, narra Angélica.

Organização popular

Diante da denúncia de inércia e seletividade do Estado, essas lideranças contam com formas de mobilização que vão da rede de Whatsapp, parceria com a mídia progressista, e pressão nas redes sociais em cima do prefeito Rafael Greca (DEM) – embora a tendência seja o mandatário bloquear as contas que o critiquem.

O fundamental, na fala delas, é o envolvimento e participação da comunidade. Com isso, muitas vezes sofrem retaliações e tentativas de invisibilidade. “Fazemos formação para geração de renda, auxiliamos mães periféricas a ter acesso a creches. Temos parcerias no Parolin, em Piraquara, fazemos ações de solidariedade, mas nossos projetos em editais muitas vezes são boicotados”, afirma Amanda, da ONG Tabuleiro.

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Andréia complementa que essas organizações na periferia fazem ações emergenciais, mas o foco é a organização e não as doações. “Queremos ter a nossa dignidade, ter poder de compra para os nossos móveis”, define.

Posição da prefeitura e futuras movimentações

No dia 18 de janeiro, houve reunião envolvendo Ministério Público, Conselho de Segurança (Conseg) do bairro e 10 mandatos de vereadores, verificando a situação ao longo da Bacia do Rio Guaíra, nos bairros Parolin e Guaíra. Entidades e movimentos populares prometem se unificar para pressionar mais o poder público em torno da pauta das cheias e qualidade das pontes nos rios.

Questionada sobre as críticas feitas nessa matéria sobre a atuação da prefeitura, Fundação de Ação Social (FAS) e Defesa Civil, a assessoria de comunicação da FAS enviou a seguinte resposta:

“Em casos emergenciais, como o das fortes chuvas que atingiram recentemente a região do Parolin, a Fundação de Ação Social é acionada através da Defesa Civil do município. Além da oferta de acolhimento, alimentação, colchões, cobertores, vestuários e kits de limpeza, as equipes da Fundação também identificam, cadastram e monitoram as famílias impactadas, pois nos dias que seguem outras demandas podem surgir. Quando a situação atinge um número muito elevado de pessoas, a Defesa Civil define um espaço para que as famílias sejam acolhidas emergencialmente visando à saída rápida daquela situação de risco”.

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