Polícia Al-Qaeda

Pornografia é arma de justiceiros digitais para derrubar páginas extremistas online

Por A Referência

09/01/2022 às 13:39:30 - Atualizado h√°

A internet é uma das principais armas dos grupos terroristas para o recrutamento de seguidores e para divulgar suas a√ß√Ķes e ideias radicais. Aplicativos de mensagens e redes sociais s√£o frequentemente usados para a propaganda de organiza√ß√Ķes como Taleban, Al-Qaeda e sobretudo o Estado Isl√Ęmico (EI). Uma dessas ferramentas de divulga√ß√£o jihadista era o grupo Soldiers of the Righteous Caliphate (Soldados do Califado Justo, em tradu√ß√£o literal), do Facebook, com pouco mais de 24 mil membros. Curiosamente, junto das imagens de decapita√ß√Ķes e exerc√≠cios militares aparecia uma grande quantidade de imagens pornogr√°ficas. As informa√ß√Ķes s√£o do site The Daily Beast.

A pornografia tornou-se uma das principais armas de justiceiros digitais que lutam para derrubar p√°ginas de grupos extremistas nas redes sociais e em aplicativos mensagem. Por vezes, o conte√ļdo pornogr√°fico é usado também por outros grupos extremistas que querem apenas derrubar canais ligadas a rivais. Se por uma lado os grandes players da internet falham invariavelmente em detectar conte√ļdo extremista, raramente deixam passar conte√ļdo pornogr√°fico.

O primeiro caso do g√™nero de que se tem not√≠cia ocorreu no Twitter, em 2016, quando membros do famoso grupo hacker Anonymous despejaram pornografia na linha do tempo dos apoiadores do EI. J√° em setembro de 2020, usu√°rios infiltrados espalharam pornografia em canais do Telegram administrados por apoiadores do EI, que ficaram frustrados com sua incapacidade de se livrar do conte√ļdo.

Algoritmos excluem postagens ofensivas ou violentas, mas medidas reforçam impunidade de propagadores (Foto: Creative Commons)


No caso recente do Facebook, imagens do Kama Sutra e desenhos animados pornogr√°ficos invadiram o grupo Soldiers of the Righteous Caliphate, que reunia sobretudo seguidores do EI. Um vigilante independente também entrou em a√ß√£o, mas tendo como alvo o Taleban, e usou imagens animadas de teor sexual sugerindo que os combatentes talib√£s s√£o homossexuais.

Um relatório de seguran√ßa publicado em outubro de 2021 pelo Facebook indica que no Iraque s√£o muito comuns os exércitos de justiceiros digitais. E uma das armas usadas por eles para derrubar os canais de grupos extremistas é a pornografia infantil, vez que a rede social tem uma pol√≠tica de toler√Ęncia zero para esse tipo de conte√ļdo. Nenhum caso do g√™nero foi detectado no Soldiers of the Righteous Caliphate, mas a pornografia em geral era constante até a p√°gina ser derrubada.

Muitos dos vigilantes ativos no grupo do Facebook eram membros da For√ßa de Mobiliza√ß√£o Popular, uma organiza√ß√£o iraquiana patrocinada pelo Estado composta por cerca de 40 mil√≠cias, na sua maioria xiitas, para combater o EI no pa√≠s. Também h√° sinais de grupos formados por seguidores do Taleban e do Hayat Tahrir Al-Sham (HTS), uma fac√ß√£o da Al-Qaeda. Embora rivais, eles teriam deixado suas diferen√ßas de lado e se unido contra o EI na internet. H√°, ainda os vigilantes independentes, que odeiam todo tipo de extremismo e agem para derrubar o m√°ximo de p√°ginas poss√≠vel, sejam elas do EI, da Al-Qaeda, do Taleban ou de outra organiza√ß√£o jihadista.

O Facebook derrubou os grupos quando foi informado sobre a exist√™ncias deles. Um porta-voz da Meta, empresa controladora da rede social, disse que n√£o "permite terroristas em nossa plataforma" e que remove "conte√ļdo que os elogia, representa ou apoia sempre que o encontramos".

Por que isso importa?

A√ß√Ķes antiterrorismo globais t√™m enfraquecido os dois principais grupos terroristas do mundo, o EI e a Al-Qaeda. J√° a pandemia de Covid-19 fez cair o n√ļmero de ataques em regi√Ķes sem conflito, devido a fatores como a redu√ß√£o do n√ļmero de pessoas em √°reas p√ļblicas. Na tentativa de manter a relev√Ęncia, as organiza√ß√Ķes jihadistas investem em zonas de conflito, como o continente africano, e isso pode causar um impacto a curto prazo na seguran√ßa global, conforme as regras de restri√ß√£o à circula√ß√£o s√£o afrouxadas.

O EI, em particular, se enfraqueceu militar e financeiramente, vitimado pela m√° gest√£o de fundos por parte de seus l√≠deres e sufocado pelas san√ß√Ķes econômicas internacionais. Porém, a organiza√ß√£o ganhou sobrevida gra√ßas ao poder de recrutar seguidores online. Atualmente, as a√ß√Ķes do EI s√£o empreendidas quase sempre por atores solit√°rios ou pequenos grupos que foram radicalizados e incitados através da internet.

Em 2017, o exército iraquiano anunciou ter derrotado a organiza√ß√£o no pa√≠s, com a retomada de todos os territórios que o EI dominava desde 2014. O grupo, que chegou a controlar um ter√ßo do Iraque, hoje mantém apenas células adormecidas que lan√ßam ataques espor√°dicos. J√° as For√ßas Democr√°ticas S√≠rias (FDS), apoiadas pelos EUA, anunciaram em 2019 o fim do "califado" criado pelos extremistas no pa√≠s.

Assim, o principal reduto tanto do EI quanto da Al-Qaeda tornou-se o continente africano, onde conseguem se manter relevante gra√ßas à a√ß√£o de grupos afiliados regionais, como Al-Shabaab, ISWAP, EIGS e Boko Haram. A expans√£o em muitas regi√Ķes da África é alarmante e pode marcar a retomada de for√ßa global dessas duas organiza√ß√Ķes, algo que em determinado momento tende refletir em regi√Ķes sem conflito, como Europa e Estados Unidos, alvos preferenciais de ataques terroristas.

No Brasil

Casos mostram que o Brasil é um porto seguro para extremistas. Em dezembro de 2013, levantamento do site The Brazil Business indicava a presen√ßa de ao menos sete organiza√ß√Ķes terroristas no Brasil: Al Qaeda, Jihad Media Battalion, Hezbollah, Hamas, Jihad Isl√Ęmica, Al-Gama"a Al-Islamiyya e Grupo Combatente Isl√Ęmico Marroquino.

Em 2001, uma investigação da revista VEJA mostrou que 20 membros terroristas de Al-Qaeda, Hamas e Hezbollah viviam no país, disseminando propaganda terrorista, coletando dinheiro, recrutando novos membros e planejando atos violentos.

Em 2016, duas semanas antes do in√≠cio dos Jogos Ol√≠mpicos no Rio, a PF prendeu um grupo jihadista isl√Ęmico que planejava atentados semelhantes aos dos Jogos de Munique em 1972. Dez suspeitos de serem aliados ao Estado Isl√Ęmico foram presos e dois fugiram.

Mais recentemente, em dezembro de 2021, tr√™s cidad√£os estrangeiros que vivem no Brasil foram adicionados à lista de san√ß√Ķes do Tesouro Norte-americano. Eles s√£o acusados de contribuir para o financiamento da Al-Qaeda, tendo inclusive mantido contato com figuras importantes do grupo terrorista.

Para o tenente-coronel do Exército Brasileiro André Soares, ex-agente da Abin (Ag√™ncia Brasileira de Intelig√™ncia), o an√ļncio do Tesouro causa "preocupa√ß√£o enorme", vez que confirma a presen√ßa do pa√≠s no mapa das organiza√ß√Ķes terroristas isl√Ęmicas.

"A possibilidade de atentados terroristas em solo brasileiro, perpetrados n√£o apenas por grupos extremistas isl√Ęmicos, mas também pelo terrorismo internacional, é real", diz Soares, mestre em opera√ß√Ķes militares e autor do livro "Ex-Agente Abre a Caixa-Preta da Abin" (editora Escrituras). "O Estado e a sociedade brasileira est√£o completamente vulner√°veis a atentados terroristas internacionais e inclusive domésticos, exatamente em raz√£o da total disfuncionalidade e do colapso da atual estrutura de Intelig√™ncia de Estado vigente no pa√≠s". Saiba mais.

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