Polícia Tentativa de Feminicídio

Sobrinho de Bolsonaro falou que ia matar, diz homem que evitou feminicídio.

Por Juliana Dal Piva

01/10/2021 às 15:58:25 - Atualizado h√°
Reprodução

O empres√°rio Orestes Bolsonaro Campos, 39 anos, responde a dois processos na Justi√ßa de S√£o Paulo por episódios violentos contra mulheres com quem ele se relacionou e um companheiro de uma delas. Sobrinho do presidente Jair Bolsonaro, ele é conhecido como "Orestinho" e se tornou réu em um caso de les√£o corporal e em outro por "homicídio qualificado tentado - feminicídio".

A coluna teve acesso aos documentos dos processos. As mulheres relatam intimida√ß√£o com armas, tiro, agress√Ķes, afogamento e vítimas arrastadas pelos cabelos devido a momentos de descontrole de Orestes. O caso foi revelado pelo jornal Brasil de Fato na quinta-feira (30).

Em entrevista exclusiva à coluna, o comerciante Valmir Oliveira, novo namorado da ex-companheira de Orestes, contou sobre o dia da agress√£o. "Ele falou que ia me matar e que se n√£o me matasse naquele dia ia ser em outra ocasi√£o", relatou Oliveira à coluna. Procurado na quinta-feira (30), o advogado Alexander Neves Lopes, que atua na defesa de Orestes, disse que só iria se posicionar sobre os processos depois da publica√ß√£o da reportagem.

A separação entre Orestes e a mulher ocorreu em janeiro do ano passado e, antes disso, os dois viveram juntos por 17 anos e tiveram dois filhos. O nome dela será preservado para sua segurança.

Ataque com peda√ßo de madeira Segundo os autos, o sobrinho do presidente atacou a ex-mulher e o comerciante Valmir Oliveira no início da manh√£ de 2 de outubro de 2020 em uma casa na cidade de Cajati, na regi√£o do Vale do Ribeira. O novo casal tinha adormecido no sof√° da sala após ver um filme na televis√£o e junto deles estava um dos filhos de Orestes com a ex-companheira. A crian√ßa tinha apenas 3 anos, à época.


No boletim de ocorr√™ncia do caso, a mulher relatou que, apesar da separa√ß√£o, Orestes ainda tinha uma chave da casa e entrou no imóvel enquanto eles dormiam. Ela contou "que seu namorado ao ver Orestes, tentou levantar-se, mas foi atingido por um golpe na cabe√ßa com um peda√ßo de madeira que Orestes portava, vindo a ficar desorientado por alguns segundos, e Orestes desferiu mais alguns golpes".

Armado com pistola A mulher contou ainda que tentou ajudar o namorado, mas Orestes "sacou uma arma de fogo" e ela acabou por pegar o "filho de 03 anos que dormia junto ao casal e evadiu-se do local com receio de ser alvejada por disparos de arma de fogo, e seu namorado continuou no local em luta corporal com Orestes".

Durante a luta corporal, Orestes mordeu Oliveira e, em algum momento, atirou contra o namorado de sua ex-mulher, mas n√£o o acertou. A bala pegou no lado externo da parede do quarto onde dormia a outra filha de Orestes com a ex-companheira. A menina tem 9 anos, mas n√£o foi atingida.

Ao sair correndo da casa, a mulher pediu ajuda na rua e obteve carona para ir até a casa de uma amiga. Só depois disso, ela conseguiu registrar o caso na Delegacia de Polícia de Barra do Turvo, cidade da regi√£o.

Após o episódio, Orestes também foi ouvido na delegacia e admitiu que os dois estavam separados e que ficou "nervoso" ao entrar na antiga casa sem avisar e ver a ex-mulher com outro homem. "Ficou nervoso porque n√£o concorda que (ex-companheira) levasse o homem para o imóvel onde residiam", disse Orestes, na delegacia, ao afirmar que se sentiu "provocado".

Ele admitiu ainda que possui registro legal de uma pistola Taurus calibre 38 e informou que "somente faz uso quando vai ao estande de tiro". Orestes alegou aos policiais que estava com a arma porque carregava dinheiro de sua loja e que o tiro ocorrido durante a briga foi "acidental".

Afogamento

Durante as investiga√ß√Ķes, a ex-mulher relatou ainda que j√° tinha sido agredida v√°rias vezes pelo ex-companheiro ao longo dos 17 anos em que viveram juntos. "Informa que foram diversas agress√Ķes, n√£o sabendo quantas, por v√°rias vezes ficou com hematomas no corpo. Que em uma das vezes recebeu um golpe em sua perna e o mesmo disse que iria lhe matar", contou ela, para a polícia.

Em outra ocasi√£o, a mulher disse que Orestes "afundou sua cabe√ßa na √°gua" e no início do relacionamento ele a levou para uma ch√°cara e "a manteve naquele local por alguns dias lhe fazendo amea√ßas, e com uma espingarda ao lado para lhe intimidar".

Após a conclus√£o do inquérito, em fevereiro, o MP-SP (Ministério Público de S√£o Paulo) o denunciou por tentativa de homicídio qualificado por motivo fútil, com emprego de meio cruel, mediante recurso que dificultou a defesa do ofendido e contra a mulher por raz√Ķes da condi√ß√£o de sexo feminino. A juíza Gabriela de Oliveira Thomaze o tornou réu abrindo processo contra ele em junho deste ano.

Devido ao caso, a mulher obteve uma medida protetiva contra Orestes. No entanto, segundo seu namorado, ela continua se sentindo amea√ßada por ele. H√° um m√™s, ele foi até a casa dela junto com a m√£e para entregar os filhos que passaram o fim de semana com o pai. No dia seguinte, ele a seguiu de carro durante uma ida ao supermercado.

"Ela tem muito receio e, por ela, eu tenho, também pelas crian√ßas. Eles ficam com medo e meus pais também de acontecer alguma coisa. Eu n√£o tenho medo. Fico com receio por ela e pela minha família", contou Valmir Oliveira. Com rela√ß√£o a esse episódio, em agosto de 2021, a defesa de Orestes disse à coluna que esse é um "fato inexistente".

Arrastada pelos cabelos

Ao justificar para os policiais a agress√£o contra a ex-mulher, Orestes Bolsonaro Campos tentou minimizar a separa√ß√£o e dizer que era um "tempo" no casamento. Mas cerca de duas semanas antes da tentativa de homicídio contra a m√£e de seus filhos, ele também agrediu uma outra mulher com quem ele estava em uma festa no dia 17 de setembro de 2020. O nome dela também ser√° preservado.

No boletim de ocorr√™ncia, a estudante de 17 anos relatou que j√° tinha "ficado" com ele algumas vezes e que os dois estavam em uma festa quando tudo aconteceu. Ambos beberam e ela ficou com sono e deitou em uma cama que havia num dos quartos da casa. Um pouco depois, um outro homem que estava na festa também deitou e adormeceu na mesma cama.

Alguns minutos passaram e Orestes ficou furioso ao ver os dois deitados. Na delegacia, a estudante disse que "estavam apenas deitados, quando Orestes entrou no local e ao ver a vítima ali, a segurou pelos cabelos, puxou, a arrastou no ch√£o, bem como desferiu v√°rios tapas no seu rosto. Que conseguiu se desvencilhar dele e correu para a rua". Depois disso, ela deixou o local e registrou o caso.

Cinco meses depois, em fevereiro deste ano, a juíza B√°rbara Chinen tornou o sobrinho do presidente réu por les√£o corporal após analisar a denúncia do MP-SP sobre o caso. Orestes é filho de Denise Bolsonaro Campos, irm√£ do presidente Jair Bolsonaro.

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