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Cercado pelo agro, festival de cinema aborda crise ambiental

Em Goiás, FICA chega aos 25 anos e amplia discussão sobre emergência climática com ajuda da arte, educação e ciência.

Por Da Redação

14/06/2024 às 08:38:13 - Atualizado há
Foto: Wikipédia

"CidadeEm Goiás, FICA chega aos 25 anos e amplia discussão sobre emergência climática com ajuda da arte, educação e ciência. Edição deste ano recebe o primeiro Fórum Infantil sobre Mudanças Climáticas.Debaixo de sol e com um calor acima da média para o mês de junho, cineastas, estudantes, indígenas, professores, políticos e cientistas movimentam as ruas históricas da cidade de Goiás. A antiga capital do estado de mesmo nome recebe há 25 anos o Festival Internacional de Cinema e Vídeo Ambiental (FICA), o mais longevo do país dedicado ao assunto.

Os mais de cem filmes tratam de temas sobre tecnologia, inovação e mudanças climáticas. O encontro, que marca a estreia da mostra de cinema indígena e povos tradicionais, acontece no coração do Cerrado – o bioma que ultrapassou a Amazônia em desmatamento. O corte da vegetação nativa na região cresceu 68% em 2023 e acabou com metade de toda a área da conhecida savana brasileira.

Pedro Novaes, diretor de programação do FICA, diz se preocupar com isso. Geógrafo de formação, ele conhece o poder da arte para impulsionar debates difíceis. "A nossa missão hoje é usar as produções cinematográficas para atrair atenção e dar mais relevância para a questão ambiental", afirmou à DW na noite de abertura.

É por isso que, pela primeira vez dentro do festival, um público diferente vai ocupar as cadeiras vermelhas do tradicional cinema da cidade. São 300 alunos entre 10 e 11 anos das redes pública e privada que inauguram o Fórum Infantil sobre Mudanças Climáticas.

"Nós moramos aqui e tínhamos a sensação de que éramos apenas público. Agora, pela primeira vez, finalmente vamos realizar algo", conta Angela Fonseca, professora aposentada que assumiu a missão de organizar o fórum.

Um comitê da esperança

Distante do centro histórico, fundado em 1727 sob domínio da Coroa Portuguesa, os estudantes do 5° ano da escola municipal Cora Coralina estão empolgados com a participação no FICA. Inaugurada em 1986, a escola fica onde era um antigo aeroporto utilizado pelo garimpo ilegal.

Muitos dos alunos nunca assistiram a um filme na telona. Há meses, eles trabalham na escrita de uma carta que será finalizada durante o fórum, nesta sexta-feira (14/07), e entregue no fim do festival, no domingo, ao governador de Goiás, Roberto Caiado.

Fonseca visitou todas as escolas e coordenou a discussão. Mas o texto foi escrito pelos próprios estudantes, que, em suas respectivas salas de aula, discutiram ao longo de meses em qual ambiente desejam crescer.

"Tem que acabar com o desmatamento na margem do rio Vermelho, com as queimadas, com a poluição e proibir as sacolinhas plásticas", pede Ana Julia Santos, de 10 anos, uma das alunas do professor Jefferson Rodrigues, que participa do projeto.

O rio nasce no município e corta o centro histórico. No começo do ano, uma enchente obrigou a remoção de pacientes do hospital. Em 2001, uma grande inundação provocou grandes perdas, até as crianças que nasceram depois conhecem a história.

Já os participantes do fórum que estudam na escola rural do distrito Águas de São João pedem para o governo repensar as licenças para dragas de areia. A atividade, comum na região, contribui para o assoreamento do córrego Bacalhau, importante fonte de abastecimento de água na cidade, mostram pesquisas da Universidade Estadual de Goiás (UEG).

Em Calcilândia, outro distrito, o desejo dos estudantes é de maior controle sobre os agrotóxicos e seus efeitos na saúde humana e com a contaminação das águas. "Mesmo sendo tão jovens, eles ficam preocupados sobre como os filhos deles vão encontrar a natureza", descreve Rosemeire de Moraes Santos, gestora da escola.

"Nossos alunos pediram a criação de um comitê para punir quem polui e quem desmata, e que o valor seja revertido para compra de mudas de espécies do Cerrado", cita Derotina Alvarenga, professora da escola rural Holanda, os temas mais debatidos.

O engajamento surpreendeu até mesmo Fonseca, experiente na área da educação. "Eles vivem e entendem a urgência da crise ambiental e pediram para que o fórum seja permanente. Nós também vamos acompanhar como os pedidos serão tratados pelas autoridades", detalha o trabalho pós-festival.

A carta escrita no primeiro Fórum Infantil entrará numa "cápsula do tempo" e deverá ser lida pelos mesmos participantes daqui a 25 anos. Laura Oliveira, de 10 anos, tem dificuldade em imaginar como será o mundo em 2049. "Eu quero que ele seja melhor, mais limpo, mais verde", afirma.

O marketing como impulso há 25 anos

Em 1999, o Fica nasceu como uma grande jogada de marketing. O então recém-eleito governador Marconi Perillo buscava algo que projetasse Goiás na cena cultural e pessoas consultadas sugeriram um festival de cinema. A escolha pelo tema ambiental se deu quase que por acidente: entre as opiniões consideradas estava a do jornalista e ambientalista Jaime Sautchuk. A história foi relatada por ele mesmo num texto de 2006 para a revista da Universidade Federal de Goiás (UFG). Sautchuk morreu em 2021.

"Naquela época, talvez, a urgência sobre o debate em torno do meio ambiente não fosse tão presente como agora. A cada ano, sentimos que a emergência é maior e que a arte carrega mensagens que provocam esta reflexão ambiental", comenta Novaes, filho do jornalista Washington Novaes, morto em 2020, e um consultor pioneiro do evento.

Desde então, o FICA se transformou no festival de cinema ambiental que atrai cineastas de todo o mundo. Sua única interrupção se deu em 2019, quando Caiado assumiu o governo. O político de família tradicional goiana fundou na década de 1980 a União Democrática Ruralista (UDR), defensora dos interesses de produtores rurais. Sem apoio naquele ano, um grupo da cidade de Goiás decidiu organizar um evento semelhante, de porte menor.

Desde sua concepção, o FICA é financiado com dinheiro do governo do estado e todas as exibições de filmes, debates, oficinas e shows são gratuitas. Em 2024, o investimento foi de R$ 5,4 milhões, segundo a organização.

Ciência e arte para a vida continuar

Além das obras audiovisuais, a preocupação com a crise climática aparece ao longo de diversos debates da programação. Para Laerte Guimarães Ferreira Junior, professor da UFG e coorganizador do festival, o cenário é propício para se pensar o futuro do bioma.

"O FICA tem que ser um espaço para se discutir as questões ambientais do país e principalmente do Cerrado. É um espaço educativo, de debates, e oferece a possibilidade de usarmos a linguagem audiovisual para comunicar ciência", diz Ferreira Junior.

Esta é uma das missões que o Mapbiomas tenta colocar em prática nesta edição. A iniciativa trouxe para Goiás uma sessão de curtas-metragens que explicam como o solo do país tem sido usado. No estado, 68% do território é ocupado pela agropecuária, com predominância das pastagens e cultivo de soja.

"É uma forma também de comunicar os nossos dados com arte e chegar a um outro público que, no geral, a gente não consegue atingir só com os dados que geramos", pontua Julia Shimbo, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e coordenadora científica do Mapbiomas.

Os vídeos e o cinema, acredita Antonio Cruvinel, reitor da UEG, são ferramentas estratégicas também para as universidades colocarem a pauta ambiental na agenda pública. "Não podemos viver apenas do agro. E não queremos expulsar o agro. Mas temos que, juntos, encontrar a harmonia, uma forma para que a vida possa continuar. A cultura não resolve os embates, mas deixa um legado para que o diálogo aconteça", defende.

*A repórter viajou a convite da organização do FICA.

Fonte: Isto É
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