De olho no Chico…

Sou uma apaixonada por Curitiba. Minha cidade natal. Meu berço. Meu canto. Minha morada. Meu ninho espiritual…

… mas confesso que dia desses tive vergonha de morar aqui. Não por conta da cidade, em si. Pode não ser perfeita, por conta da pobreza nela existente, das políticas equivocadas no que tange ao assistencialismo social, pelo desemprego…

Mas é um local apaixonante. Não trocaria Curitiba por nada (nem por ninguém). Já tive problemas com a insegurança pública -tentativas de assalto, perseguição tática, fiscalização policial-, mas nem isso me desanimaria. Já perdi as contas das vezes que me irritei com uma lombada eletrônica ou com um pardal disfarçado de poste no meio da rua para arrancar-me mais uma forma vil de imposto…

Mas apesar de ser aviltante, todos os defeitos de Curitiba poderiam ser perdoados. Mas os curitibanos, esses decepcionam. Digo isso depois de ter me sentido humilhada no show do extraordinário compositor Chico Buarque de Hollanda. Após terminar a apresentação, eis que uma mulher vestida de vermelho pula no palco e agarra o músico. Os seguranças correram para retirá-la do palco.

Não que as mulheres presentes no espetáculo não tivessem, todas elas, vontade de beijar o Chico. Mas é preciso um mínimo de auto-controle numa situação destas. Começamos a aplaudir o músico para que voltasse ao palco. A impressão que tinha era a de que ele não voltaria mais. Pensei em várias formas de tortura contra a moça de vermelho (é só uma confissão!).

Não satisfeita, a moça resolveu voltar ao palco e sambar a música cantada por Chico no seu maravilhoso retorno:
– ”Deixa a menina contente, deixa a menina sambar em paz!”

É como se ela soubesse que poderia ser amparada pela letra da música…
A moça sambou em paz. O Chico voltou para o Rio de Janeiro. O espetáculo acabou. Mas a cena infame -a vergonha de ser curitibana, a admiração no olhar de Chico, o rebolado rasgado da senhorita, a indignação do público- não sai da minha mente…

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