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Curitiba volta a ter tráfico de bebês

A descoberta de novos casos de tráfico de bebês em Caçador, Santa Catarina, com rota em Curitiba, levanta a suspeita da Polícia Federal de que a mesma quadrilha que atuou no Paraná na década de 80 continue ou esteja atuando novamente na comercialização de crianças. Segundo o delegado Rogério Ortiz, responsável pelo inquérito, é muita coincidência o fato de Curitiba ter sido a escolhida para o encaminhamento das crianças antes do destino final. ‘‘O que nós queremos saber é o porquê destas crianças terem sido encaminhadas para a capital paranaense e para onde elas são levadas’’, diz o delegado.

Desde o início das investigações da Polícia Federal de Florianópolis, em 1994, ficou evidenciada, segunda o delegado, a participação do médico Fauzi Farah, clínico-geral de Curitiba, e a mulher dele, Nancy, na comercialização dos bebês. Mais de 10 mães denunciaram a intermediação do casal, contando que os filhos eram trazidos para Curitiba para ser entregues aos novos pais. Mas o médico até hoje não foi ouvido.

A quadrilha de tráfico e comercialização de bebês atuava, segunda a Polícia Federal, em municípios próximos a Caçador (Videira e Lebon Régis). Algumas pessoas trabalhavam no aliciamento das mães, em prostíbulos e bairros carentes da cidade. ‘‘Acredito que mais de 30 crianças tenham sido levadas da região e encaminhadas para Curitiba’’, revela Ortiz.

Método semelhante – O método de atuação da quadrilha de Caçador foi um dos motivos que levaram o delegado Ortiz a relembrar os casos de sequestro ocorridos no Paraná. No início, em 1983, bebês eram comercializados e adotados por casais estrangeiros, geralmente de Israel. Os bebês eram vendidos por preços que variavam entre U$ 3.200,00 a U$ 5.400,00. No ano de 83, 74 crianças curitibanas foram adotadas por casais estrangeiros.

‘‘Parece que os fatos começam a se repetir, e tendo Curitiba como palco principal’’, comenta Ortiz. No caso de Caçador, as mães vendiam os filhos por valores que variavam entre R$ 200,00 e R$ 600,00. Os intermediadores recebiam pelas crianças, segundo informações do delegado, cerca de R$ 20 mil. No entanto, não existem indícios concretos de que os bebês tenham sido levados para fora do País.

Diferenças – Mas enquanto a Polícia Federal procura um ponto em comum entre as duas quadrilhas, buscando novidades no setor de informações e inteligência de Curitiba, os investigadores do caso da quadrilha paranaense comandada por Arlete Hilu apontam as diferenças entre as formas de atuação. O delegado Fauze Salmem, presidente de um dos inquéritos instaurados em 1989, disse que não deve haver qualquer ligação entre as duas quadrilhas. No caso de Caçador, todas as adoções tiveram a conivência das mães. ‘‘Acho que a quadrilha que atua em Santa Catarina é muito mais organizada, tem apoio de médicos e magistrados’’, diz Salmem.

O Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas no Paraná (Sicride) não pretende agir por enquanto no caso. De acordo com o delegado Harry Hebert, desde a criação do órgão, em 1995, os casos de sequestro são raros. ‘‘Acho que o Paraná não está na rota desta quadrilha de Santa Catarina’’, diz Hebert.

Novos Casos – De qualquer forma, novos casos podem indicar que a quadrilha também está atuando no Paraná. Em 26 de janeiro deste ano (data em que seis pessoas foram presas acusadas de tráfico de crianças em Caçador), uma paranaense deu o filho para uma pessoa desconhecida logo após o parto. Ela contou que recebeu R$ 200,00 para cobrir as despesas com o hospital. O Sicride recebeu a denúncia há uma semana e está tentando localizar o bebê. Algumas pessoas já foram ouvidas no inquérito.

Outro caso de desaparecimento que pode ter sido fruto de uma negociação para adoção irregular é o da menina Jéssica de Oliveira, que foi levada por desconhecidos em outubro de 98, quando tinha apenas 14 dias. A mãe conta que o bebê foi levado por uma mulher que se ofereceu para segurar a criança enquanto ela olhava algumas roupas numa loja, no centro de Curitiba. A polícia ainda não tem pistas do paradeiro de Jéssica.

Mesmo com a coincidência de algumas formas de atuação entre as duas quadrilhas, Herbert não acredita que haja qualquer ligação. ‘‘Todas as pessoas envolvidas na quadrilha de Caçador são desconhecidas nos autos que investigaram a quadrilha de Arlete Hilu’’, conta Herbert. ‘‘Acreditamos que seja outra ramificação’’.Para delegado, coincidências podem significar que quadrilha que atuou nos anos 80 possa estar atuando outra vez.

Cerco – Consultório do médico Fauzi Farah, suspeito de chefiar a quadrilha, está fechado desde quarta-feira. Delegado Rogério Ortiz diz que já ficou evidenciada a participação do médico na organização do esquema de tráfico.

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About Luciana Pombo

Jornalista, teóloga, professora, amante do futebol, da poesia, da política, das coisas da vida! Com diversas premiações e moções parlamentares. Entre as principais premiações: Escritores da Liberdade, Top Master Estadual em Jornalismo, Fera Honorária (pela luta em prol da repressão ao uso de drogas e prevenção), Amiga da Criança, Dia do Radialista expedido pela Câmara Municipal de Curitiba, Dia da Mulher expedido pela Câmara Municipal de Curitiba, Diploma de Mérito Social.
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